sábado, 17 de novembro de 2007

Crónicas de uma era perdida


A arte cinematográfica tem por vezes momentos fantásticos onde, qual tira de Möbius, duas eras tão distantes no espaço e no tempo se unem por breves instantes para proporcionar um espectáculo sensorial magnífico. Aqui, o poema épico escrito por um autor anónimo há mais de mil anos é adaptado ao grande ecrã fazendo uso das mais avançadas tecnologias digitais 3D e o resultado é este "Beowulf" de Robert Zemeckis.
O realizador norte-americano conjuga no seu filme toda uma longa tradição de literatura e cinema de fantasia e ficção histórica, não sendo contudo pioneiro na exploração das temáticas do épico nacional inglês. Um dos primeiros a reconhecer a importância desta obra foi o hoje mundialmente conhecido J.R.R. Tolkien, que escreveu na década de 30 um importante ensaio onde realça as qualidades líricas do poema e aplaude a sua dimensão fantástica. O autor da trilogia "O Senhor dos Anéis" referiu mesmo que "Beowulf " estava "entre as suas fontes mais valiosas" e a influência deste na sua obra é seminal. Também no cinema foram tentadas algumas adaptações com resultados muito diversos, das quais se deve destacar "O Último Viking" ("The 13th Warrior" de John McTiernan), épico de acção muito interessante que é uma mescla de elementos do poema com outras fontes históricas ficcionadas pelo escritor Michael Crichton. Este filme teve decididamente alguma influência sobre o filme de Zemeckis, que vai desde a encenação das batalhas até à abordagem estética de algumas sequências (a chegada do protagonista num barco por entre um mar tempestuoso, por exemplo).
Para marcar a diferença, os argumentistas Neil Gaiman e Roger Avary enveredaram por uma adaptação livre do poema, aproveitando alguns elementos essenciais da sua estrutura: as três batalhas contra outras tantas criaturas são também no filme o fulcro da dinâmica narrativa. Às divergências obrigatórias, fundamentalmente no que concerne aos diálogos e à linguagem utilizada nos mesmos, juntaram outras muito interessantes quanto à natureza moral das personagens e das suas relações. Se no primeiro vector não foram muito bem sucedidos (algumas expressões linguísticas estão fora do contexto histórico do filme ou simplesmente não resultam) é no segundo que reside uma das grandes forças do filme, nada menos que a profundidade psicológica implícita de figuras como Beowulf, Hrothgar, Wealtheow e a mãe de Grendel. O protagonista do filme (Ray Winstone) é simultaneamente um herói corajoso e respeitado, mas também um egocêntrico fanfarrão obcecado com a perpetuação dos seus feitos no seio da comunidade. O seu orgulho só é comparável ao de Hrothgar (Anthony Hopkins), um rei envelhecido e vergado aos pecados de um passado que o atormenta e aos que o rodeiam. A sua esposa Wealthow (Robin Wright Penn) esconde-se na sua persona de distanciamento e recato, sendo contudo incapaz de deixar perspirar a sua atracção por Beowulf. Aquela que é talvez a personagem-chave de toda a história, a mãe de Grendel (Angelina Jolie), foi fortemente alterada pelos escritores do filme que a converteram numa sensual criatura metamorfa, que seduz quem entra no seu reduto subterrâneo com promessas de prazer e poder.


Sem revelar muito mais sobre as surpresas do argumento, refira-se que a construção visual deste mundo (misto de elementos artísticos das civilizações nórdicas e de referências estéticas do género fantástico em geral) está excepcionalmente bem conseguida, oscilando entre o detalhe dos espaços e indumentárias e a criatividade no desenho das criaturas, entre facto histórico e mito literário. Esta que é uma sociedade hedonista, de exagerados festejos regados com hidromel no grande salão do rei e de guerreiros insaciáveis de violência e mulheres, elemento que Zemeckis teve coragem de representar de um modo nunca antes visto no cinema de animação norte-americano. Uma opulência que é também sinónimo de decadência moral e declínio civilizacional, fruto da desconfiança nos velhos deuses do panteão de Valhalla e do avanço constante do cristianismo que se vai fazendo anunciar. Num momento revelador, após o arrasador ataque do monstruoso Grendel, Unferth (John Malkovich) questiona o Rei Hrothgar se para além das oferendas a Odin (deus máximo da mitologia nórdica) não deverão também prestar veneração à nova divindade Jesus Cristo para os proteger contra desgraças futuras.
Se toda a narrativa é interessante por si mesma, o capítulo técnico do filme é a sua alma-mater. "Beowulf" quebra um conjunto de barreiras no cinema de animação, abrindo precedentes na representação realista de figuras humanas. Após meritórios exemplos como "Final Fantasy" e "The Polar Express" (realizado também por Robert Zemeckis), assistimos aqui ao próximo passo na tecnologia de motion capture ao serem recriados digitalmente actores de renome como Anthony Hopkins ou Angelina Jolie. O resultado final é impressionante pelo realismo, mas também pelo facto de não existir uma colagem total á imagem dos humanos representados, já que é permitida grande liberdade de alteração das características físicas dos mesmos, desde a altura até à idade.
No final, esta obra inscreve-se num género de acção fantástica que a aproxima mais de épicos violentos como "Conan e os Bárbaros" que da fantasia hard-core de "O Senhor dos Anéis". Esse é certamente um dos factores que desconcertou a crítica dos EUA, habituada a um cinema de animação de temáticas pueris, ao contrário de tradições artísticas como a nipónica onde este sector expandiu há muitas décadas a sua área de intervenção para além do público infantil. A esse facto não serão estranhos elementos como a forte consciência sexual da história (mais insinuada que gráfica) e a representação da violência nas várias batalhas de uma forma nunca antes vista com empalamentos, braços decepados e jorros de sangue (quem jogou "God of War" para a Playstation 2 irá soltar um sorriso de reconhecimento em certas sequências do filme). O ritmo imparável de "Beowulf" apelará certamente a um público adolescente, mas realização excepcional tanto ao nível estético como técnico (principalmente para quem puder assistir a uma projecção em 3D) vai fascinar as audiências mais adultas. Deve-se aplaudir a coragem em lançar um produto tão arriscado, para gáudio de todos aqueles que amam a animação como uma arte por mérito próprio e não como um compartimento estanque do cinema reservado às crianças e aos seus pais em matinés de Domingo. Obrigado Robert Zemeckis!

domingo, 11 de novembro de 2007

A idade dourada do cinema

Este "Elizabeth - A Idade do Ouro" surgiu referido na lista de filmes mais aguardados para este ano que publiquei em Setembro passado e a antecipação era grande já que depois da excepcional primeira parte, estreada em 1998, ficou a sensação de que era necessária uma sequela para retomar a exploração sobre o reinado da monarca britânica. A história agitada do primeiro capítulo enconta aqui um digno sucessor, não sem falhas graves que o tornam numa obra imperfeita, mas fascinante.
Se em "Elizabeth" tinhamos uma luta essencialmente intersticial pela posse do trono, esta segunda parte expande-se para um âmbito mais vasto: a batalha pela sobrevivência de uma nação. Talvez por isso, o efeito de exaltação patriótica é aqui mais evidente, factor que acaba por ser fatal para as ambições dos criadores do filme que optaram por uma abordagem maníqueista do conflito entre a Espanha católica e a Inglaterra protestante. Sofre com isso a caracterização do principal antagonista do filme, o Rei Filipe II (Jordi Mollá faz o que pode com os diálogos que lhe foram atribuidos) e a própria Cate Blanchett denota, a espaços, dificuldades em lidar com a inconsistência da sua personagem. Momentos como o apelo de Elizabeth às suas tropas - entre o impacto visual de uma Joana D'Arc e o discurso Shakespeariano de Henrique V em Agincourt - revelam a fragilidade do argumento escrito por William Nicholson e Michael Hirst.
Este filme reacende ainda a eterna discussão existente entre a primazia da liberdade artística e as exigências de autenticidade histórica no cinema. Apesar de assentar em factos reais, "Elizabeth - A Idade de Ouro" é uma obra de ficção onde, por natureza, o rigor é variável consoante as necessidades dramatúrgicas. Espera-se, pelo menos, que as opções de desvio em relação aos factos sejam benéficas para o filme, o que aqui nem sempre se verifica. Personalidades fascinantes da época como Sir Francis Drake surgem fugazmente, enquanto que Sir Walter Raleigh (uma figura interessante mas de certa forma lateral) tem grande protagonismo, fruto notório da intenção de criar um triângulo amoroso entre ele, a raínha e a sua camareira. Clive Owen parece tentar recuperar o magnetismo de mestres do swashbuckler como Errol Flynn para dar vida ao pícaro Raleigh, mas é claramente incapaz de conciliar o fascínio primário da sua personagem aventureira com as exigências dramáticas de algumas sequências. Refira-se que com actores como Cate Blanchett e Geoffrey Rush (merecia mais tempo em ecrã com o seu genial Francis Walsingham) por perto torna-se difícil brilhar por mérito próprio, tal é o rigor que conferem à composição dos seus papéis.
Deixando de parte os principais defeitos, é obrigatório frisar os pontos fortes daquele que, apesar de tudo acima referido, é um excepcional filme de época. É raro encontrar no cinema histórico dos últimos anos, à excepção dos épicos de Ridley Scott "Gladiador" e "Reino dos Céus", um exemplo tão interessante de esplendor estético, onde toda a panóplia de efeitos visuais surge em função da narrativa e com preocupações artísticas claras. Face à enorme evolução tecnológica do cinema contemporâneo, com espectaculares ferramentas digitais à disposição dos criadores, torna-se difícil gerir o protagonismo que os mestres dos efeitos computorizados alcançaram. Mais uma vez o realizador indiano Shekhar Kapur recorre, na tradição do cinema do seu país, à simbologia da côr patenteada nas magníficas indumentárias que realçam a intensidade dramática dos momentos-chave do filme (veja-se o impactante vestido vermelho de Samantha Morton no momento da decapitação da raínha Mary). Noutra imagem belíssima, Elizabeth avança para um penhasco onde, ao fundo, vemos a Armada Invencível decaíndo por entre chamas. Todavia, se certas opções de câmara são excepcionais (os magníficos e ambiciosos planos picados que reforçam a temática do isolamento de Elizabeth), existem também outras duvidosas que infelizmente recordam o passado deste realizador no mundo dos videoclips (a profusão de travellings em redor de Cate Blanchett torna-se excessiva no último terço do filme).
Kapur opera claramente uma recuperação da panache dos clássicos do cinema da era dourada de Hollywood, que aqui vai mais além dos cenários e guarda-roupa, arriscando a incursão no movediço terreno da psicologia de uma enorme monarca, no seu gáudio público e nas suas frustrações privadas. Elizabeth está em luta contra o mundo católico, contra os inúmeros traidores internos mas também numa constante refrega contra a sua condição de raínha que a isola do mundo, daqueles que ela ama e que a colocam no interior de uma inacessível torre de marfim. Essa solidão representa a angústia maior desta mulher fascinante, num equilíbrio precário entre os seus prazeres pessoais e os seus deveres régios. É enternecedora a sequência em que Elizabeth pede a Sir Walter Raleigh um beijo em segredo, procurando memórias perdidas de um prazer agora inatingível. São estes momentos que colocam "Elizabeth - A Idade de Ouro" acima da grande maioria do cinema que povoa anualmente as nossas salas, obras das quais nenhum momento sequer perdura no pensamento.
Num olhar final, pode-se afirmar que este é um filme de beleza cativante cujas falhas o impedem de superar a intensidade psicológica do seu antecessor. Uma situação inevitável face à alteração do centro de gravidade da obra, onde se procurou ir mais além das intrigas bizantinas da corte inglesa e abrir as portas para uma narrativa espacialmente mais vasta (sequências na corte espanhola e batalhas navais) e psicologicamente mais restrita (Cate Blanchett e a sua Elizabeth são o fulcro do drama). Face ao insucesso comercial do filme até ao momento nas bilheteiras mundiais e se em 2008 a Academia não decidir presenteá-lo com uma mão cheia de nomeações para os Óscares, dificilmente teremos uma continuação para completar a prometida trilogia.


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Relembrando John Frankenheimer

A história do cinema nem sempre é justa com alguns dos seus protagonistas mais relevantes. A enorme mediatização imposta sobre a vida e obra de alguns realizadores, em conjunto com a crescente relevância que os críticos cinematográficos alcançaram nas últimas décadas, conduzem cada vez mais a fenómenos atípicos em que personalidades medíocres são aplaudidas e premiadas, enquanto que artistas maiores e influentes são conscientemente ignorados.
Um bom exemplo deste último caso será certamente o norte-americano John Frankenheimer. Sem entrar em grandes considerações biográficas - no cinema o percurso desenhado pela obra de um artista far-lhe-à certamente mais justiça que as vicissitudes da sua vida pessoal - destaquemos então os filmes-chave da sua carreira longa e prolífera. Formado no mundo da televisão, Frankenheimer iria fixar-se permanentemente no grande ecrã desde 1961 com a sua segunda longa-metragem "The Young Savages", reflexão sobre a delinquência juvenil de onde se destaca a primeira colaboração com Burt Lancaster, um dos seus actores fetiche. Logo em 1962 surgiria a sua primeira obra de relevância "Birdman of Alcatraz", inspirado pela história real de Robert Stroud, um condenado a prisão perpétua que cura uma ave ferida na sua cela e acaba por se tornar num ornitologista de fama mundial. O já referido Lancaster e Telly Savalas conseguem duas magnificas interpretações, servidas pela direcção sólida de Frankenheimer que iniciaria aqui uma sequência excepcional de filmes que se estenderia por toda a década de 60.
Ainda no mesmo ano surgiria "The Manchurian Candidate" ("O enviado da Manchúria" na tradução portuguesa), filme seminal da sua obra e da história do cinema, um thriller político intenso sobre um grupo de soldados americanos que é raptado durante a Guerra da Coreia. Levados para a Manchúria (província chinesa) são alvo de um complexo processo de lavagem ao cérebro envolvendo hipnose profunda, com o intuito de criar o assassino infiltrado perfeito e manipular a política interna dos Estados Unidos. Frank Sinatra tem um dos grandes papéis da sua carreira como o confuso Major Bennett Marco, um solitário cujos pesadelos recorrentes o levam a investigar os acontecimentos que rodearam o desaparecimento do seu grupo na Coreia. John Frankenheimer revela aqui a sua enorme inteligência enquanto realizador, recorrendo a uma estética noir claustrófóbica que combina o humor negro com enquadramentos e ângulos de câmara pouco convencionais, gerando uma atmosfera irrespirável e plena de tensão. A estranha presciência do filme (a morte do presidente John F. Kennedy no ano seguinte seria apenas a primeira entre uma mão cheia de assassinatos políticos ocorridos nos EUA durante os anos 60) levou a que permanecesse quase desconhecido do grande público durante anos após o seu lançamento, até Frank Sinatra levar ao seu ressurgimento nos cinemas em 1988. A influência de "The Manchurian Candidate" iria estender-se não só pela restante filmografia de Frankenheimer, mas também na obra de um conjunto de jovens realizadores (Francis Ford Coppola, Alan J. Pakula e Brian De Palma, entre outros) que na década de 70 viriam a revitalizar o thriller originando um sub-género conhecido como paranoid thriller, filho da desilusão sócio-política gerada pelos assassínios de figuras centrais como os irmãos Kennedy e Martin Luther King e também pela longa guerra no Vietname.
Em 1964 seria lançado "Seven Days in May", reflexão intensa sobre as relações entre os poderes político e militar, revolvendo sobre um grupo de generais que planeia um golpe de estado após o anúncio de um acordo pacífico entre os EUA e a URSS para a desactivação total do arsenal nuclear de ambas as nações. Burt Lancaster desempenha o papel de um carismático general que mostra total desconfiança na boa fé dos até então inimigos do bloco comunista, desenhando o plano para a tomada do poder. Do outro lado da barricada encontra Kirk Douglas, um colaborador próximo que prefere desiludir o mentor que trair a sua pátria. Mais uma vez John Frankenheimer mostra a sua habilidade inata para criar tensão no ecrã preferindo, tal como na sua obra anterior, o uso da fotografia a preto e branco para realçar visualmente as dicotomias intrinsecas a cada personagem.
Mantendo-se nos "carris" do thriller seguir-se-ia "The Train" ("O Comboio", 1965) onde o omnipresente Burt Lancaster toma de novo o protagonismo como um corajoso resistente francês que, durante a II Guerra Mundial, tenta impedir os soldados nazis de levar um combóio carregado de peças de arte roubadas para a Alemanha. Frankenheimer dirige aqui não só um dos melhores filmes de guerra como também um dos grandes épicos de acção da história do cinema, conjugando sabiamente o suspense com personagens profundas e interessantes, com particular destaque para a de Lancaster, plena de dúvidas sobre a real necessidade dos seus actos. Também relevante será "Seconds" (1966), contundente fábula paranóica sobre um homem que decide abandonar a sua vida desinteressante para mudar de identidade com a ajuda de uma sombria organização. Depois de um conjunto de operações plásticas é-lhe dada uma nova opotunidade para começar a sua vida, desta vez como um pintor residente numa hedonística comunidade de Malibu, na Califórnia. Depressa se sente acossado na sua nova vida, mas a saída para o "velho mundo" não é uma porta que se abra com facilidade.
Durante os anos seguintes Frankenheimer iria seguir um caminho inconstante, com muitos altos e baixos, pelo que se poderão destacar algumas obras que sobressaem como "The Fixer" (1968), "The Iceman Cometh" ("O Homem de Gelo", 1973) e "The French Connection II" ("Os Incorruptíveis Contra a Droga II" de 1975, uma sequela excelente e psicologicamente mais profunda que o original, mas tambem injustamente esquecida). A década de 80 seria marcada por insucessos consecutivos que acabariam por conduzi-lo de volta ao trabalho para televisão. Tal facto não foi de forma alguma negativo, já que o realizador voltaria a recolher algum reconhecimento e sucesso, parecendo encontrar no pequeno ecrã a liberdade que havia perdido nas grandes produções de Hollywood. De monta são os seus trabalhos "The Burning Season" (1994), "Andersonville" (1995) e "Path to War" ("Caminho para a Guerra", 2002). Em 2002, após complicações surgidas durante uma operação à coluna, Frankenheimer viria a falecer aos 72 anos. Não poderia contudo terminar sem a obrigatória referência a "Ronin", filme produzido em 1998 e que representou certamente a sua última grande realização cinematográfica. Trabalhando sobre um argumento de David Mamet (creditado como Richard Weisz por divergências com a produtora), este filme transporta-nos para o mundo do pós-Guerra Fria onde os letais (e leais) agentes secretos de ontem são mercenários a soldo de quem pagar mais (daí a analogia com os Ronin japoneses, samurais sem mestre). Robert De Niro e Jean Réno formam uma dupla cativante de guerreiros sem rumo, incorporados numa equipa de elite formada para recuperar uma mala cujo conteúdo é desconhecido. A partir daqui decorre todo um agitado conjunto de eventos entre a amizade e a traição, tornados inesquecíveis pelas já famosas sequências de perseguição através de apertadas ruelas em várias cidades francesas e onde se faz sentir a mão experiente do realizador. Uma jóia a preservar, especialmente numa era em que os thrillers de acção estão reduzidos a meras montras de efeitos digitais, pelo que é anacronicamente refrescante voltar à autenticidade da acção filmada como há três décadas atrás (basta ver o já citado "The Train" do mesmo realizador para perceber este conceito de realismo).
Talvez seja por isso que grandes realizadores como John Frankenheimer acabam esquecidos, porque a passagem do tempo mudou a sua visão do mundo, mas não a sua forma idiossincrática de o filmar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Ainda Blade Runner


Em complemento ao post publicado anteriormente deixo aqui mais alguma informação sobre a edição definitiva de "Blade Runner". Estará disponível em três edições distintas, uma com dois discos, outra de quatro discos e a mais completa com cinco discos, todas disponíveis em formato DVD, mas também em HD-DVD e Blu-Ray. A data de lançamento prevista no Reino Unido é 3 de Dezembro, pelo que os mais impacientes poderão já fazer a sua pré-reserva em sites como a Amazon britânica. Para já não existe uma data prevista para o lançamento em Portugal.
Como se pode verificar na imagem acima apresentada, para além dos cinco discos, a edição europeia irá conter também um conjunto de oito fotografias de coleccionador, um fotograma do filme em película e uma carta pessoal assinada pelo realizador Ridley Scott.



Trailer do Final Cut de "Blade Runner", montagem final de Ridley Scott
que está a ter apresentações limitadas em cinemas dos EUA e em alguns
festivais europeus e que será lançada em DVD no final de 2007.


Mais uma vez os fãs europeus ficam a perder em relação aos norte-americanos já que naquele mercado será disponibilizada, a partir de 18 de Dezembro, uma edição ainda mais completa que inclui também um unicórnio em origami (réplica daquele que Deckard encontra no final do filme) e um spinner (veículo voador da polícia) em miniatura. Tudo isto embalado numa mala metálica exclusiva, em edição limitada e numerada, que está também disponível para pré-reserva em lojas como a Amazon dos Estados Unidos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Blade Runner - 25 anos depois

Depois de décadas de versões diversas em VHS, Laserdisc e DVD de "Blade Runner", chega finalmente a edição definitiva deste clássico da ficção-científica. Foi um difícil percurso com um quarto de século que culmina agora numa gloriosa celebração para uma obra-prima nem sempre consensual, mas cuja influência artística e social não pode ser negada.
Fruto de um processo de produção tortuoso, marcado por conflitos entre o realizador Ridley Scott e os financiadores, mas também por atritos com os próprios actores e equipa técnica (ficaram famosas as discussões com o protagonista Harrison Ford), "Blade Runner" acabou por ser lançado nos cinemas numa versão profundamente alterada em relação às pretensões dos seus criadores. Depois de um test screening onde os espectadores pareceram ficar confusos com o que viram os produtores, numa tentativa de clarificar a narrativa, ordenaram a inclusão de segmentos de voice over exageradamente explicativos, para além de um final feliz forçado. Lançado nos cinemas norte-americanos no Verão de 1982, o filme foi esmagado pela crítica e o público, ainda imbuído no espírito caloroso e familiar do recém-lançado "E.T. O Extraterrestre", acabou por ignorá-lo.
Nos anos que se seguiram o florescente mercado de VHS viria a ressuscitar "Blade Runner", convertendo-o naquele que será, muito provalvelmente, o primeiro filme de culto. Entre fanzines criados por apaixonados seguidores e as extensas discussões que se seguiriam na ainda jovem internet, nascia um fenómeno à escala mundial onde todos tinham interpretações diversas para os inúmeros elementos narrativos e estéticos da obra. Tudo culminaria, numa primeira fase, no relançamento do filme numa versão Director's Cut - esta denominação é um pouco abusiva já que Ridley Scott apenas permitiu que o filme fosse remontado segundo as suas instruções, sem contar contudo com o seu empenho directo e pessoal - onde para além da remoção da já referida voice over e do inane happy ending, foi acrescentada a já mítica visão de um unicórnio por parte da personagem central Rick Deckard, que reabriu a discussão sobre se ele seria um humano ou um replicant.
Volvidos então 25 anos, após longas negociações para que a Warner Home Video pudesse voltar a deter os direitos de comercialização do filme, surge agora a versão final assinada pelo realizador britânico (denominada Final Cut), onde revertem todos os elementos cuja inclusão estava inicialmente prevista. Para englobar este momento único para todos os fãs (onde orgulhosalmente me incluo) foram criadas nada menos que três edições distintas, que vão da mais simples com 2 DVD, passando por uma intermédia com 4 discos e a mais desejada com 5 DVD, que inclui por seu turno cinco versões do filme.




Trailer do extenso documentário "Dangerous Days" que reflecte
sobre todo o processo de produção do filme e que marcará presença
nesta nova edição, ocupando todo o segundo DVD.

Sem entrar em demasiados pormenores sobre cada uma das edições fixemo-nos apenas na mais completa. No primeiro DVD teremos o Final Cut do filme, acompanhado de diversos comentários áudio gravados por Ridley Scott, Hampton Fancher e David Peoples (argumentistas), Syd Mead (responsável de forma fulcral por todo o design visual) e Douglas Trumbull (genial técnico dos efeitos visuais) entre outros. No segundo disco teremos um documentário de 3 horas e meia, intitulado "Dangerous Days" (ver trailer acima), com a participação de mais de 80 intervenientes directos e indirectos na produção de "Blade Runner" e na interpretação de todo o fenómeno cultural que o sucedeu. O terceiro DVD contém três versões distintas do filme, a montagem original norte-americana (1982), a versão internacional (1982) que inclui algumas breves sequências de acção e violência não mostradas nos cinemas dos EUA e ainda o já famoso Director's Cut (1992), que lança a controvérsia sobre a real natureza de Rick Deckard. Para o quarto DVD a Warner Home Video seleccionou um conjunto de pequenas featurettes da época com entrevistas e sequências cortadas nunca antes vistas, destacando-se uma série de conversas com Philip K. Dick (autor do romance "Do Androids Dream of Electric Sheep" que esteve na origem do filme) e as galerias com esboços usados na concepção cénica. O quinto e último disco, um bónus apenas para aqueles que adquirirem a edição mais completa, traz-nos a Workprint de "Blade Runner" (numa tradução literal será a "versão de trabalho" utilizada geralmente para as primeiras sessões públicas ou test screenings dos filmes) que se apresenta como a mais radicalmente diferente jamais vista, incluindo uma nova sequência de abertura, uma banda sonora alternativa e diálogos não utilizados nas montagens posteriores. Certamente uma relíquia a ver e preservar por todos os seguidores do filme, mas também uma excepcional oportunidade para revelar este momento magistral de cinema a toda uma geração que só lhe terá conhecido os "herdeiros", toda uma panóplia de obras que beberam inspiração neste monumento criativo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Os melhores "Prison Movies"

Depois do texto sobre "Os Condenados de Shawshank" publicado na abertura deste blog surgiu a sugestão para que fizesse um top ten dos melhores filmes passados em prisões. Como qualquer lista do género são sempre muitos os que ficam de fora, quer por falta de "espaço" na lista ou simplesmente porque nunca os vi. Aí está a lista dos dez melhores a que já assisti sem nenhuma ordenação especial.
- "Os Condenados de Shawshank" ("The Shawshank Redemption", 1994): Foi devido a este filme que esta lista nasceu e assim surge, com mérito, referido entre ela. É um filme de prisão porque a sua acção decorre no interior duma, mas a reflexão moral e de vida que o perpassa são maiores do que "aqueles muros de pedra" que assomam sobre os prisioneiros. Para mais algumas ideias leia-se o post anterior publicado neste blog.
- "O Buraco" ("Le Trou", 1960): Este filme quase desconhecido representou o adeus do realizador francês Jacques Becker ao cinema e à vida (faleceu pouco depois de o terminar). Mas despediu-se com uma obra-prima magistral, de um rigor fílmico enorme e onde nada é deixado de parte. Cinco homens encerrados numa cela exígua planeiam fugir da prisão. Os árduos trabalhos de escavação e limpeza são retratados de forma quase documental, sentimos o enorme esforço físico e, mais relevante ainda, as tensões psicológicas entre personagens cujo passado desconhecemos e das quais, também por isso, desconfiamos. O plano é quase perfeito e só uma traição poderá denunciá-lo. A ver sem restrições.
- "Papillon" ("Papillon", 1973): Baseando-se na obra homónima e autobiográfica de Henri Charriére, o realizador Franklin J. Schaffner transporta-nos para a Ilha do Diabo, uma das mais horríveis colónias penais francesas. Um criminoso menor (Steve McQueen) é condenado a cumprir pena naquela prisão da Guiana Francesa por, supostamente, ter assassinado um proxeneta. Lá irá conhecer Louis Dega (interpretação magnífica de Dustin Hoffman) e envolver-se, ao longo de vários anos, numa série de tentativas de fuga impressionantes. Uma crónica impactante sobre a persistência do espírito humano face ao terror e ao horror de um inferno prisional.
- "Os Fugitivos de Alcatraz" ("Escape from Alcatraz", 1979): Filme soberbo, entre o rol de colaborações de excepção entre o realizador Don Siegel e o actor Clint Eastwood, "Os Fugitivos de Alcatraz" transcorre no espaço da mais mítica prisão do mundo. Alimentado pelo seu ódio contra o regime brutal e desumano imposto pelo director da cadeia (Patrick McGoohan), Eastwood desenvolve um engenhoso plano que culminará com uma espectacular fuga e o encerramento de Alcatraz. Evitando alguns dos clichés do género, Don Siegel centrou-se no essencial (uma perspectiva rigorosa herdada dos realizadores franceses), revelando cada passo do esquema num crescendo de sensações e construindo thriller calculista e fascinante.
- "A grande evasão" ("The Great Escape", 1963): A história real de um campo de prisioneiros de guerra durante a II Guerra Mundial é trazida à vida por John Sturges neste genial épico de aventura e tensão. Apoiando-se num colossal ensemble de actores (Steve McQueen, Richard Attenborough, James Garner, James Coburn e Charles Bronson, apenas para destacar alguns) cria o relato humano de um dos mais arrojados planos de fuga jamais criados, capaz de despertar os mais rasgados sorrisos e também a mais profunda comoção. São quase três horas de entretenimento puro, generosamente complementado pela rica composição musical de Elmer Bernstein, que sublinha o delicioso humor de algumas personagens, mas também a tragédia que as envolve.
- "Fugiu um Condenado à Morte" ("Un Condamné à Mort C'Est Echappé", 1956): Esta será talvez a obra menos hermética e inacessível do mestre gaulês Robert Bresson e, simultaneamente, um dos melhores exemplos da forma contida e, podemos dizê-lo, minimalista como realizava. E esse estilo adequa-se na perfeição ao tema de um homem desesperado que tenta fugir de uma quase inexpugnável prisão nazi. Tudo é reduzido ao essencial: o isolamento contínuo da personagem central vai ampliando a urgência de uma solução e do desfecho que se antevê. O resto é o mais puro suspense, ancorado na crueza com que Bresson enfoca esta narrativa quase muda (poucos diálogos e quase nenhuma música), sublimando as suas próprias experiências pessoais durante a II Grande Guerra.
- "A Ponte sobre o Rio Kwai" ("The Bridge on the River Kwai", 1957): Se existiu alguém capaz de filmar uma história tão grandiosa como esta, essa pessoa foi David Lean. Mestre total do Épico (o E maíusculo não é acidente), Lean inflou este relato de um grupo de militares ingleses encarcerados num campo de prisioneiros japonês com uma dimensão humana e visual raramente atingidas e só superadas no seu "Lawrence da Arábia". Alec Guinness lidera estoicamente o seu pelotão nos faraónicos trabalhos de construção de uma ponte, apertado pela pressão do tempo, incorporada no Coronel Saito (excelente Sessue Hayakawa). Paralelamente desenvolve-se uma missão quase suicida para a destruição da mesma, liderada por um relutante ex-prisioneiro americano (William Holden). Talvez a maior metáfora cinematográfica jamais criada sobre a loucura e futilidade da guerra. Incontornável.
- "Gulag" ("Gulag", 1985): Uma pequena delícia este thriller criado directamente para TV. Um engenheiro de televisão (David Keith) vê-se envolvido num obscuro esquema do KGB que termina com a sua prisão num gulag siberiano. Desesperado pela sentença de 10 anos a que foi condenado, decide então fugir contando com a colaboração de um cínico espião britânico (Malcolm McDowell). "Gulag" evoca os fantasmas esquecidos da guerra fria e da forma como o ocidente via o mundo obscuro que se escondia por detrás da cortina de ferro. McDowell, um dos actores mais desaproveitados dos últimos 30 anos, oferece-nos mais uma grande actuação.
- "Stallone: Prisioneiro" ("Lock Up", 1989): Certamente o filme menos consensual desta lista, mas também um dos melhores exemplos daquilo que o típico prison movie deve ser. É inegável que muitas das obras deste género que se produziram depois, como "O Último Castelo", foram fortemente influenciadas por este esforço imperfeito do realizador John Flynn. Sylvester Stallone interpreta um simpático prisioneiro, condenado por um crime menor, cuja pena está prestes a terminar. Aí surge Donald Sutherland, interpretando um sádico director de prisão que moveu influências para levar Stallone para o seu "inferno". Por entre alguns lugares-comuns e personagens estereotipadas, este filme vence sobretudo pela forma sincera como aborda a temática prisional e remete-se simplesmente à categoria de filme que representa: excelente entretenimento.
- "O Expresso da Meia-Noite" ("The Midnight Express", 1978): Fecha-se esta lista com um dos incontornáveis clássicos do filme de prisões, um doloroso relato escrito por Oliver Stone e realizado por Alan Parker. Um turista americano (Brad Davis) decide arriscar tudo ao tentar transportar uma grande quatidade de droga para a Turquia. O sistema legal do país decide fazer dele um exemplo e condena-o a 30 anos no terror de uma prisão de condições indescritíveis. Longe de casa, alienado por um mundo indiferente e imensamente cruel, a única solução será apanhar o "expresso da meia-noite", nome dado ali às tentativas de fuga da prisão. Com esta obra Alan Parker, indo beber à tradição iniciada por "Papillon", elevou a fasquia no que toca à representação da loucura destilada no ambiente prisional e da imensa violência que o atravessa.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Os mais aguardados!

Depois da estagnação que foi a época cinematográfica de Verão em Portugal chega a altura das grandes estreias do último terço do ano. Estes serão alguns dos mais aguardados. Deseja-se que a maioria deles ainda estreiem em 2007 nos nossos cinemas.
- "3:10 to Yuma": James Mangold ("Copland" e "Walk the Line") realiza este remake de um western clássico. Russell Crowe e Christian Bale são os protagonistas e a crítica norte-americana saudou efusivamente a perspectiva refrescante que este filme trouxe sobre um género dado como morto há muitos anos.
- "The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford": Já que falamos de westerns aqui está o outro representante deste género para este ano. Uma elegia (mais de duas horas e meia de metragem) sobre a decadência do oeste americano e o fim da era dos míticos cowboys incorporada por Brad Pitt e por Casey Affleck. Será uma boa razão para rever o mítico "The Long Riders" de Walter Hill, também ele sobre o bando do histórico "outlaw" Jesse James.
- "Sicko": O agent provocateur Michael Moore lança mais umas farpas sobre a política dos EUA com uma análise corrosiva sobre sistema de saúde público do país, com George W. Bush no centro das críticas.
- "Into the wild": Para quem ainda não reparou Sean Penn, para além de um grande actor, é também um excepcional realizador. Para a sua quarta longa-metragem escolheu a história verídica de Christopher McCandless, um jovem de 22 anos que abandona a sua confortável vida para enveredar por uma aventura que o levou aos recantos mais selvagens dos Estados Unidos. Um reencontro com a tradição dos históricos exploradores e a descoberta dos párias que residem à margem da sociedade americana.
- "In the Valley of Elah": Tommy Lee Jones é o protagonista central neste drama intimista sobre a morte misteriosa de um jovem no Iraque e um pai que busca respostas onde ninguém lhas parece querer dar. Paul Haggis escreveu e realizou.
- "Eastern Promises": O regresso esperado de David Cronenberg acompanhado pelo repetente Viggo Mortensen ("Uma História de Violência"), Naomi Watts e Vincent Cassell. Relata a história de uma enfermeira que procura a verdade sobre uma jovem prostituta que, antes de morrer, deu á luz uma criança. Uma viagem "guiada" por um proeminente mafioso russo que a levará aos recantos mais sórdidos do crime organizado de Londres.
- "Lust, Caution": O filme com que Ang Lee arrebatou mais uma vez o Leão de Ouro em Veneza leva-nos até á década de 40 em Xangai. Uma jovem resistente chinesa envolve-se num complexo plano para assassinar um alto dignatário que colabora com os invasores japoneses. Para isso acaba por se envolver intimamente com ele, talvez demasiado para se manter indiferente.
- "Elizabeth: The Golden Age": Quem viu "Elizabeth" em 1998 e gostou (como é o meu caso) ficou com sede de uma sequela. Sehkhar Kapur teve finalmente luz verde para produzi-la com todas as estrelas originais. Contem por isso com Cate Blanchett e Geoffrey Rush, mas também com Clive Owen e Samantha Morton que vêm engrossar um elenco de luxo. Está prometida uma recriação da destruição da Armada Invencível de Espanha, pelo que se prevê novo festim visual.
- "Michael Clayton": George Clooney está de regresso aos thrillers, desta vez só como actor, para a história de um ex-advogado sem escrúpulos que faz o trabalho sujo de uma das maiores empresas legais de Nova Iorque. O seu sucesso só é igualado pelos fracasso na sua vida pessoal. Mas tudo vai mudar quando um caso aparentemente simples é sabotado e Michael Clayton é levado a repensar as suas estratégias para o trabalho e para a vida.
- "Reservation Road": Depois do sucesso crítico de "Hotel Ruanda" o realizador Terry George dirigiu este pungente drama sobre um advogado (Mark Ruffalo) que atropela mortalmente uma criança e foge. Os pais (Joaquin Phoenix e Jennifer Connelly) assistem ao acidente mas não reconhecem o condutor. Ruffalo enfrenta um enorme dilema moral que só vai aumentar quando a família da criança o contrata para tratar das questões legais do caso.
- "Gone Baby Gone": Os fracassos comerciais acumularam-se e desta vez Ben Affleck decidiu "esconder-se" atrás da câmara para realizar um muito prometedor policial onde conta com a colaboração de colossos como Morgan Freeman e Ed Harris, para além do seu irmão Casey Affleck. Esta história sobre o rapto de uma criança e as suas consequências devastadoras foi adaptada do livro de Dennis Lehane, cuja obra "Mystic River" já tinha sido adaptada ao cinema.
- "American Gangster": Todos aguardam a estreia do novo filme de Ridley Scott, que põe Denzel Washington e Russell Crowe frente-a-frente na Nova Iorque dos anos 70. Baseado na história real de Frank Lucas, um dos maiores criminosos da história de Manhattan, que construiu um império de crime traficando droga dentro dos caixões dos soldados americanos mortos no Vietnam que regressavam aos EUA. Uma grande aposta de Scott para as bilheteiras e para os Óscares.
- "Lions for Lambs": Um professor (Robert Redford), uma jornalista (Meryl Streep) e um congressista (Tom Cruise) vêm as suas vidas e carreiras afectadas pela investigação de um incidente que envolve soldados americanos no Afeganistão. Um filme com um tema actual e impactante, com Redford a ser responsável pela realização.
- "Beowulf": Recriação do épico heróico inglês totalmente feita em animação 3D. Robert Zemeckis regressa a esta tecnologia depois do surpreendente "Polar Express", desta vez com uma abordagem mais violenta e realista. Ray Winstone, Angelina Jolie, John Malkovich e Anthony Hopkins emprestam as suas aparência e vozes ao que promete ser um dos filmes do ano.

"Get busy living or get busy dying."


Reencontrei-me recentemente com esse clássico popular do cinema que é "Os Condenados de Shawshank" ("The Shawshank Redemption" no original). Popular hoje, porque na altura do seu lançamento nos cinemas em 1994 não chamou a atenção de muitos, mesmo apesar das sete nomeações para os óscares. O mítico VHS viria a redimir esta obra-prima, transformando-a numa das mais compradas e alugadas entre o mercado do vídeo caseiro. Hoje surge legitimamente nas listas dos melhores filmes de sempre tanto da crítica como do público.
O realizador Frank Darabont jogou e forma sábia com o tempo e a longa extensão do filme permite uma reflexão aprofundada sobre os temas da liberdade física e espiritual. Tim Robbins e especialmente Morgan Freeman incorporam duas personagens quase dicotómicas, o primeiro um inocente aprisionado que se recusa a ser institucionalizado, o último é o paradigma do "homem da prisão", sábio nas negociatas típicas entre os encarcerados e nas regras não escritas que regulam aquele universo fechado. Mais do que um simples bom filme "Os Condenados de Shawshank" é uma experiência de vida, qualquer sinopse ou definição são demasiado redutoras para explanar o ataque sensorial e espiritual que nos atinge ao vê-lo. A direcção de Darabont é precisa e bela, mas a banda sonora de Thomas Newman desempenha aqui um papel essencial. Os tons melancólicos e introspectivos do piano e das cordas (violino e violoncelo) sublinham o etéreo deste filme onde toda a crueldade do mundo prisional se desvanece face à vitória do espírito. E essa a ideia essencial, a única verbalizável talvez, com que ficamos. É um filme fortíssimo, deixa-nos absortos nos conceitos e na estética impecável, mas ressoa também num nível superior. Mais uma obra que mostra que é possível ser-se popular na forma, mas profundo e complexo no conteúdo. A ver sem reservas e por todos, principalmente para aqueles que esqueceram o prazer de ver CINEMA.