domingo, 24 de fevereiro de 2008

Via Dolorosa

Recentemente foi transmitido na RTP 2 um excelente documentário sobre os tristes eventos ocorridos na prisão de Abu Ghraib, onde soldados norte-americanos torturaram cidadãos iraquianos, muitos deles inocentes. As fotografias e vídeos humilhantes que correram o mundo relembraram-nos que, independentemente da época ou do conflito em questão, a espada de Damócles do desrespeito dos direitos humanos pende sempre sobre a cabeça daqueles directamente envolvidos num acto de agressão. Como se afirmava nesse portento artístico que é “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg, a guerra traz sempre ao de cima o pior que há em nós. No seio do caos bélico, o Homem está submerso na loucura da destruição mútua que cobra as suas vítimas visíveis no campo de batalha, mas também muitas invisíveis cuja psique fica para sempre afectada.
É sobre tudo isto que “No vale de Elah” se debruça de forma aterradora, numa incursão nos abismos da alma e das relações familiares, nas verdades escondidas e palavras nunca ditas. Baseando-se na história real de um soldado que foi assassinado em 2003 depois de regressar do Iraque, Paul Haggis compôs um drama de guerra visto na perspectiva de um pai atormentado (Tommy Lee Jones) que procura a verdade sobre o desaparecimento e morte do seu filho. A viagem que aí se inicia leva-o até ao coração das angústias desta América do século XXI, no frágil equilíbrio entre o respeito pelos poderes do governo federal e a enorme dúvida que emana de um conflito mal justificado junto da opinião pública e, principalmente, dos soldados na frente de combate. Como único aliado terá apenas uma agente policial (interpretação sólida de Charlize Theron), uma mulher que enfrenta diariamente as pressões misóginas dos seus colegas numa esquadra de província e que trabalha aqui no caso mais importante da sua carreira. Revelar mais sobre a história do filme seria destrutivo. A narrativa está construída de forma hábil para nos conduzir de revelação em revelação, permitindo-nos compartilhar a mudança gradual na perspectiva que o personagem central tem do seu filho e, por extensão, do seu país.

Haggis é um dos argumentistas mais respeitados de Hollywood e logo na sua primeira experiência como realizador, com ”Colisão”, conquistou o Óscar de melhor filme. O seu talento sai confirmado neste filme, que dirige de forma confiante e eficiente, sem grandes artifícios visuais, cingindo-se sempre ao essencial do guião do qual também é autor, afirmando-se como um dos grandes pintores da paisagem psicológica e social da América contemporânea.
Tommy Lee Jones, por seu turno, confere à sua personagem uma autenticidade fenomenal, expressa em momentos chave do filme. A forma metódica como faz a sua cama de hotel, o modo acanhado como lida com uma empregada de bar de alterne ou o momento em que, ao passar perto de uma escola, chama a atenção de um salvadorenho que distraidamente içou a bandeira americana ao contrário, tudo apontando para uma personalidade retraída, controlada, fruto de uma vida militar. Idiossincrasias de um verdadeiro patriota, cuja dedicação é posta à prova quando confrontado com a rigidez burocrática dos investigadores oficiais, deparando-se com a realidade turva dos acontecimentos que rodearam a presença do seu filho no Iraque e com a mente perturbada dos membros daquele batalhão recém-regressado.
Vêm à tona as dolorosas memórias da guerra do Vietname, numa época conturbada da história dos EUA em que a sociedade nunca compreendeu o real significado dum conflito tão distante no espaço e também na forma desinteressada, repulsiva até, com que os soldados eram tratados no seu regresso. Um fantasma que ecoa nesta nova guerra, uma ferida aberta onde "No Vale de Elah" põe o dedo de forma precisa, expandindo a sua significância muito para além do género dramático ou policial (onde cumpre perfeitamente a sua função) e estabelecendo-se nessa rara categoria de filme-mensagem, politicamente comprometido com certeza, mas revelando essencialmente uma preocupação sincera com o estado da nação. Num glorioso momento final Tommy Lee Jones leva a bandeira americana desgastada que o seu filho lhe enviou do Iraque e iça-a de cabeça para baixo naquele mesmo mastro junto à escola. Como explica, isso representa um sinal internacional para pedido de auxílio em tempos difíceis. Neste maravilhoso filme é um metafórico pranto de ajuda por um país que parece já não saber cuidar dos seus filhos.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"A bastard from a basket"

Ao sair da sala de cinema depois de ver "Haverá sangue" somos invadidos por uma enorme sensação de felicidade. Não por estarmos perante um filme alegre, longe disso aliás, mas porque assistimos ao renascimento da nossa confiança na arte cinematográfica, constatando que depois de mais de cem anos ainda há muito território criativo por explorar. E aqui Paul Thomas Anderson teve o talento de "perfurar" no terreno certo, criando a sua melhor obra até ao momento.
Aqueles primeiros minutos de filme quase totalmente mudos, onde partilhamos o esforço e ambição desmesuradas de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) no fundo de um buraco na imensidão inóspita das badlands americanas, trazem à memória não só uma época histórica distante, mas também uma forma de fazer cinema que nos parece agora longínqua. “Haverá sangue” é assim um filme clássico no melhor sentido do termo, recapturando o sabor aventureiro e duro do western (“O tesouro de Sierra Madre”, de John Huston, será certamente uma referência), sem contudo negar a sua contemporaneidade ao lançar um olhar simultaneamente contemplativo, exaltando o empreendedorismo de um homem nos EUA do início do século XX, e crítico, pela forma mordaz como aponta os efeitos nefastos da ambição.
Dólares, muitos dólares, e religião, os dois motores da história americana são também os fulcros deste colossal épico que assenta, quase totalmente, numa interpretação espectacular de Daniel Day-Lewis. Ele incarna a face do individualismo e da omnipresente aversão ao insucesso, num país obcecado pela riqueza na era da corrida ao petróleo. Numa magistral sequência, Plainview confessa ao seu irmão que sonha estar sozinho, longe da sociedade, revelando que detesta todo e qualquer ser humano. A sua convivência com o mundo é assim difícil, tal como a relação de conveniência que tem com o seu filho, mascote propagandística que transporta consigo para o ajudar a quebrar o gelo nas compras de terrenos para exploração.

A outra face da moeda é Eli Sunday (interpretação excepcional de Paul Dano), jovem líder da “Igreja da Terceira Revelação”, arquétipo de tantas religiões apocalípticas nascidas na América e que nos remetem para a realidade das frustrações das comunidades do oeste, subjugadas à dureza do terreno e do clima. A fé é o escape e Eli é um hábil manipulador das incertezas do seu povo, organizando histriónicas missas com milagres de encher o olho. O homem da fé, Eli, e o homem do dinheiro, Daniel, são no fundo dois seres movidos pela ambição e por isso as suas personalidades competitivas entram em choque constante.
O talento de Paul Thomas Anderson, já vislumbrado em obras anteriores como “Magnólia”, atinge aqui o seu ápex estético, expresso na fluidez dos movimentos de câmara (fantásticos planos sequência) e na sábia utilização da escala de planos, que realça a imensidão da paisagem na bela tradição de filmes como “Dias do paraíso”, do incontornável Terrence Malick, e “O gigante”, de George Stevens também ele ambientado no mundo da exploração petrolífera. Toda a gestão do tempo narrativo é fenomenal, deixando o espectador explorar aquela conturbada época histórica, mas essencialmente o turbilhão psicológico de Daniel Plainview. Como suporte essencial para “Haverá sangue” realça-se também a banda sonora original de Jonny Greenwood, mais conhecido como guitarrista dos Radiohead, que assina aqui uma composição emocionalmente reveladora. Utilizando exclusivamente instrumentos orquestrais, cria uma atmosfera oprimente com temas onde predominam as cordas, ora eleigíacas, ora enveredando por sonoridades atonais de influência Bartokiana (a suite “O mandarim maravilhoso” vem-nos à memória pela forma como emula, a espaços, os sons de máquinas em movimento constante). Uma banda sonora de excepção complementada por temas de Arvo Pärt (“Fratres”) e de Johannes Brahms (o belíssimo terceiro movimento do “Concerto para Violino”).
Num momento em que tantos temem pela vitalidade artística do cinema, “Haverá sangue” estabelece-se imediatamente como uma obra-prima, relembrando que há todo um grupo fenomenal de realizadores que ainda têm espaço para criar filmes de excepção, principalmente podendo contar com um talento como o Daniel Day-Lewis. Ele que, para quem se tivesse esquecido, é de facto um dos maiores intérpretes de sempre.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Mark Pellington - Tapeçaria de sombras

Depois de muitas semanas de ausência (pelas quais peço desde já desculpa) e continuando na senda de realizadores esquecidos, surge a ocasião para uma justa referência à para já curta mas intensa obra de Mark Pellington. À semelhança de inúmeros autores da sua geração, este norte-americano iniciou-se no mundo dos videoclips na década de 90, trabalhando com grupos como os Pearl Jam, U2 ou INXS. A partir de 1995 lançou-se no mundo da televisão com a aclamada série documental "United States of Poetry", dividida em seis episódios temáticos sobre a poesia contemporânea dos EUA e as suas extensões literárias e musicais. Dois anos mais tarde experimenta o cinema com "Going all the way", um drama discreto onde teve oportunidade de dirigir Ben Affleck e Rachel Weisz, e com "Destination Anywhere", uma narrativa elaborada em redor de algumas das músicas de Jon Bon Jovi para o álbum com o mesmo título. Mencione-se que, também em 1997, Pellington dirigiu alguns episódios da excelente série de TV "Homicide - Life on the Street", reconhecida pela autenticidade na representação do trabalho da brigada de homicídios de Baltimore.
Regressa ao grande ecrã com "O Suspeito da Rua Arlington" (Arlington Road, 1999), fabuloso thriller psicológico que, infelizmente, não conquistou grande atenção por parte do público e da crítica, mas que é um dos maiores exemplos do género produzidos na última década. Um professor universitário (Jeff Bridges) retira-se com o seu filho de nove anos num subúrbio de Washington depois da sua mulher, uma agente do FBI, ter morrido durante o cerco à propriedade de um grupo de extrema-direita. Traumatizado com a sua tragédia pessoal, concentra-se nas suas aulas sobre o terrorismo na história americana. Depois de salvar um rapaz que encontra ferido na rua, acaba por criar uma relação de amizade com os pais dele (Tim Robbins e Joan Cusack), que descobre serem seus vizinhos. Conforme ganha confiança com eles, começam a surgir dúvidas sobre a veracidade das suas vidas aparentemente perfeitas. As investigações que faz levam-no a crer que os seus vizinhos podem fazer parte de um grupo extremista que esteve envolvido num devastador ataque à bomba em Saint Louis, numa espiral de obsessão e conspiração que o levarão a um final chocante. O término do filme, pela enorme surpresa que traz, acabou também por ser uma das razões do seu insucesso junto das audiências. Para o nosso mundo pós-11 de Setembro, os temas de “O Suspeito da Rua Arlington” são mais actuais que nunca. Mark Pellington mostra com este filme o seu enorme talento como realizador, exímio na gestão do suspense e na cuidada cadência das revelações surpreendentes que mantêm a narrativa viva. As actuações de Jeff Bridges (perfeito no papel de um homem perturbado) e Tim Robbins (assustador na sua ambivalência) conferem autenticidade ao sentimento de tensão que percorre a história, magistralmente sublinhada pela banda sonora criada a meias pelo experiente Angelo Badalamenti e pelos Tomandandy. Quem conhecer um pouco da história moderna norte-americana, vai certamente notar os paralelos com eventos reais: o incidente de Ruby Ridge, no qual se baseia a morte da mulher de Bridges no filme, e o ataque bombista de Oklahoma, transportado aqui para Saint Louis. A título de curiosidade, refira-se que o genérico do filme foi criado pelo genial Kyle Cooper, responsável por algumas das melhores sequências introdutórias da história recente do cinema (“Seven”, “A Esfera” e o videojogo “Metal Gear Solid 3”, por exemplo).




Trailer do filme "A Profecia das Sombras" (The Mothman Prophecies, 2002).


A sua terceira longa-metragem seria o fenomenal “A Profecia das Sombras “ (The Mothman Prophecies, 2002), inspirado no seminal livro homónimo de John Keel (para mais informações sobre este livro consultem este excelente site, em inglês, criado pelo meu irmão http://bf.web.simplesnet.pt/mothman). Concentrando-se nas histórias pessoais dum grupo restrito de personagens (grande parte dos acontecimentos relatados no livro foram, compreensivelmente, esquecidos) Mark Pellington apresenta aqui o seu melhor trabalho até ao momento, um drama sobrenatural sublime onde as fronteiras da realidade se esbatem e acontecimentos bizarros invadem a existência de pessoas comuns. Este factor realça o impacto emocional de toda a narrativa, explanada num ritmo lento, feito de silêncios incómodos, de uma tensão quase palpável e do confronto eterno, em surdina, entre os terrores da vida e da morte.
Richard Gere (John Klein), numa das suas melhores interpretações de sempre, traz-nos uma personagem emocionalmente ferida após o inesperado falecimento da sua noiva. Nos últimos momentos de vida, deixa-lhe um caderno com misteriosos esboços de uma criatura que viu no momento em que ambos se viram envolvidos num despiste de automóvel. Dois anos depois, o jornal onde trabalha envia-o a Richmond, na Virgínia, para entrevistar um político. Durante a viagem perde-se e vai parar, inexplicavelmente, a Point Pleasant, cidade situada a cinco horas de distância do local onde deveria estar. Depara-se com uma comunidade pacata e aterrorizada por estranhos eventos, desde luzes e chamadas telefónicas estranhas, a avistamentos de uma criatura alada (o “Mothman” do título), que descobre ser semelhante à que a sua noiva desenhou. Depressa percebe que estes eventos paranormais giram em redor de Indrid Cold, uma bizarra figura com aparentes poderes proféticos, cuja aparição está associada a grandes catástrofes vindouras. Obcecado com a busca da verdade, Klein vê-se numa encruzilhada de fantasmas pessoais e acontecimentos sobrenaturais que o parecem perseguir e que culminarão num final dramático. Para criar esta atmosfera oprimente, Pellington preferiu recorrer a poucos efeitos digitais, utilizando a câmara (através de desfocagens), a iluminação (observem-se cuidadosamente as sequências com Gere no quarto de motel) e a montagem como principais armas. Perfeita também a banda sonora dos Tomandandy, um trabalho pleno de originalidade, feito de longínquos uivos e sussurros, pungentes notas de piano e obscuras batidas electrónicas, acompanhadas amiúde pelo dramatismo das cordas. Um conjunto cinematográfico excepcional, num dos grandes exemplos do que o terror contemporâneo pode (e deve) oferecer.



Videoclip de "Everybody's Changing" (2005) dos Keane que acabou por nunca ser oficialmente divulgado ,supostamente pelo grupo achar que não se adaptava à temática da música.


A carreira de Mark Pellington seria interrompida pela trágica morte da sua mulher aos 42 anos, depois de doença prolongada. Ainda profundamente afectado, realizou em 2005 alguns episódios para a série “Casos Arquivados” (Cold Case, transmitida em Portugal pela RTP 2) e voltou aos videoclips, dos quais destacamos “Everybody’s Changing”, onde prestou homenagem à sua esposa (ver vídeo acima), mas que os Keane iriam recusar, optando por filmar um novo clip. Interessante também o seu videoclip de 2007 “Soul Mate”, de Natasha Bedingfield, que surge aqui apresentado como exemplo da estética deste realizador.
Para o futuro existem já alguns filmes anunciados, como “Henry Poole is Here”, uma comédia negra com Luke Wilson com lançamento planeado para este ano, e ainda “Night and Day You are the One”, thriller sobrenatural sobre um homem que não consegue distinguir os sonhos da realidade depois de assistir a um horrível assassinato. Projectos interessantes para acompanhar a evolução da carreira deste realizador que é já um talento confirmado e cuja obra merece um visionamento cuidado.



Videoclip de "Soul Mate" (2007) de Natasha Bedingfield. Notem-se as
enormes semelhanças estéticas com "A Profecia das Sombras".

sábado, 17 de novembro de 2007

Crónicas de uma era perdida


A arte cinematográfica tem por vezes momentos fantásticos onde, qual tira de Möbius, duas eras tão distantes no espaço e no tempo se unem por breves instantes para proporcionar um espectáculo sensorial magnífico. Aqui, o poema épico escrito por um autor anónimo há mais de mil anos é adaptado ao grande ecrã fazendo uso das mais avançadas tecnologias digitais 3D e o resultado é este "Beowulf" de Robert Zemeckis.
O realizador norte-americano conjuga no seu filme toda uma longa tradição de literatura e cinema de fantasia e ficção histórica, não sendo contudo pioneiro na exploração das temáticas do épico nacional inglês. Um dos primeiros a reconhecer a importância desta obra foi o hoje mundialmente conhecido J.R.R. Tolkien, que escreveu na década de 30 um importante ensaio onde realça as qualidades líricas do poema e aplaude a sua dimensão fantástica. O autor da trilogia "O Senhor dos Anéis" referiu mesmo que "Beowulf " estava "entre as suas fontes mais valiosas" e a influência deste na sua obra é seminal. Também no cinema foram tentadas algumas adaptações com resultados muito diversos, das quais se deve destacar "O Último Viking" ("The 13th Warrior" de John McTiernan), épico de acção muito interessante que é uma mescla de elementos do poema com outras fontes históricas ficcionadas pelo escritor Michael Crichton. Este filme teve decididamente alguma influência sobre o filme de Zemeckis, que vai desde a encenação das batalhas até à abordagem estética de algumas sequências (a chegada do protagonista num barco por entre um mar tempestuoso, por exemplo).
Para marcar a diferença, os argumentistas Neil Gaiman e Roger Avary enveredaram por uma adaptação livre do poema, aproveitando alguns elementos essenciais da sua estrutura: as três batalhas contra outras tantas criaturas são também no filme o fulcro da dinâmica narrativa. Às divergências obrigatórias, fundamentalmente no que concerne aos diálogos e à linguagem utilizada nos mesmos, juntaram outras muito interessantes quanto à natureza moral das personagens e das suas relações. Se no primeiro vector não foram muito bem sucedidos (algumas expressões linguísticas estão fora do contexto histórico do filme ou simplesmente não resultam) é no segundo que reside uma das grandes forças do filme, nada menos que a profundidade psicológica implícita de figuras como Beowulf, Hrothgar, Wealtheow e a mãe de Grendel. O protagonista do filme (Ray Winstone) é simultaneamente um herói corajoso e respeitado, mas também um egocêntrico fanfarrão obcecado com a perpetuação dos seus feitos no seio da comunidade. O seu orgulho só é comparável ao de Hrothgar (Anthony Hopkins), um rei envelhecido e vergado aos pecados de um passado que o atormenta e aos que o rodeiam. A sua esposa Wealthow (Robin Wright Penn) esconde-se na sua persona de distanciamento e recato, sendo contudo incapaz de deixar perspirar a sua atracção por Beowulf. Aquela que é talvez a personagem-chave de toda a história, a mãe de Grendel (Angelina Jolie), foi fortemente alterada pelos escritores do filme que a converteram numa sensual criatura metamorfa, que seduz quem entra no seu reduto subterrâneo com promessas de prazer e poder.


Sem revelar muito mais sobre as surpresas do argumento, refira-se que a construção visual deste mundo (misto de elementos artísticos das civilizações nórdicas e de referências estéticas do género fantástico em geral) está excepcionalmente bem conseguida, oscilando entre o detalhe dos espaços e indumentárias e a criatividade no desenho das criaturas, entre facto histórico e mito literário. Esta que é uma sociedade hedonista, de exagerados festejos regados com hidromel no grande salão do rei e de guerreiros insaciáveis de violência e mulheres, elemento que Zemeckis teve coragem de representar de um modo nunca antes visto no cinema de animação norte-americano. Uma opulência que é também sinónimo de decadência moral e declínio civilizacional, fruto da desconfiança nos velhos deuses do panteão de Valhalla e do avanço constante do cristianismo que se vai fazendo anunciar. Num momento revelador, após o arrasador ataque do monstruoso Grendel, Unferth (John Malkovich) questiona o Rei Hrothgar se para além das oferendas a Odin (deus máximo da mitologia nórdica) não deverão também prestar veneração à nova divindade Jesus Cristo para os proteger contra desgraças futuras.
Se toda a narrativa é interessante por si mesma, o capítulo técnico do filme é a sua alma-mater. "Beowulf" quebra um conjunto de barreiras no cinema de animação, abrindo precedentes na representação realista de figuras humanas. Após meritórios exemplos como "Final Fantasy" e "The Polar Express" (realizado também por Robert Zemeckis), assistimos aqui ao próximo passo na tecnologia de motion capture ao serem recriados digitalmente actores de renome como Anthony Hopkins ou Angelina Jolie. O resultado final é impressionante pelo realismo, mas também pelo facto de não existir uma colagem total á imagem dos humanos representados, já que é permitida grande liberdade de alteração das características físicas dos mesmos, desde a altura até à idade.
No final, esta obra inscreve-se num género de acção fantástica que a aproxima mais de épicos violentos como "Conan e os Bárbaros" que da fantasia hard-core de "O Senhor dos Anéis". Esse é certamente um dos factores que desconcertou a crítica dos EUA, habituada a um cinema de animação de temáticas pueris, ao contrário de tradições artísticas como a nipónica onde este sector expandiu há muitas décadas a sua área de intervenção para além do público infantil. A esse facto não serão estranhos elementos como a forte consciência sexual da história (mais insinuada que gráfica) e a representação da violência nas várias batalhas de uma forma nunca antes vista com empalamentos, braços decepados e jorros de sangue (quem jogou "God of War" para a Playstation 2 irá soltar um sorriso de reconhecimento em certas sequências do filme). O ritmo imparável de "Beowulf" apelará certamente a um público adolescente, mas realização excepcional tanto ao nível estético como técnico (principalmente para quem puder assistir a uma projecção em 3D) vai fascinar as audiências mais adultas. Deve-se aplaudir a coragem em lançar um produto tão arriscado, para gáudio de todos aqueles que amam a animação como uma arte por mérito próprio e não como um compartimento estanque do cinema reservado às crianças e aos seus pais em matinés de Domingo. Obrigado Robert Zemeckis!

domingo, 11 de novembro de 2007

A idade dourada do cinema

Este "Elizabeth - A Idade do Ouro" surgiu referido na lista de filmes mais aguardados para este ano que publiquei em Setembro passado e a antecipação era grande já que depois da excepcional primeira parte, estreada em 1998, ficou a sensação de que era necessária uma sequela para retomar a exploração sobre o reinado da monarca britânica. A história agitada do primeiro capítulo enconta aqui um digno sucessor, não sem falhas graves que o tornam numa obra imperfeita, mas fascinante.
Se em "Elizabeth" tinhamos uma luta essencialmente intersticial pela posse do trono, esta segunda parte expande-se para um âmbito mais vasto: a batalha pela sobrevivência de uma nação. Talvez por isso, o efeito de exaltação patriótica é aqui mais evidente, factor que acaba por ser fatal para as ambições dos criadores do filme que optaram por uma abordagem maníqueista do conflito entre a Espanha católica e a Inglaterra protestante. Sofre com isso a caracterização do principal antagonista do filme, o Rei Filipe II (Jordi Mollá faz o que pode com os diálogos que lhe foram atribuidos) e a própria Cate Blanchett denota, a espaços, dificuldades em lidar com a inconsistência da sua personagem. Momentos como o apelo de Elizabeth às suas tropas - entre o impacto visual de uma Joana D'Arc e o discurso Shakespeariano de Henrique V em Agincourt - revelam a fragilidade do argumento escrito por William Nicholson e Michael Hirst.
Este filme reacende ainda a eterna discussão existente entre a primazia da liberdade artística e as exigências de autenticidade histórica no cinema. Apesar de assentar em factos reais, "Elizabeth - A Idade de Ouro" é uma obra de ficção onde, por natureza, o rigor é variável consoante as necessidades dramatúrgicas. Espera-se, pelo menos, que as opções de desvio em relação aos factos sejam benéficas para o filme, o que aqui nem sempre se verifica. Personalidades fascinantes da época como Sir Francis Drake surgem fugazmente, enquanto que Sir Walter Raleigh (uma figura interessante mas de certa forma lateral) tem grande protagonismo, fruto notório da intenção de criar um triângulo amoroso entre ele, a raínha e a sua camareira. Clive Owen parece tentar recuperar o magnetismo de mestres do swashbuckler como Errol Flynn para dar vida ao pícaro Raleigh, mas é claramente incapaz de conciliar o fascínio primário da sua personagem aventureira com as exigências dramáticas de algumas sequências. Refira-se que com actores como Cate Blanchett e Geoffrey Rush (merecia mais tempo em ecrã com o seu genial Francis Walsingham) por perto torna-se difícil brilhar por mérito próprio, tal é o rigor que conferem à composição dos seus papéis.
Deixando de parte os principais defeitos, é obrigatório frisar os pontos fortes daquele que, apesar de tudo acima referido, é um excepcional filme de época. É raro encontrar no cinema histórico dos últimos anos, à excepção dos épicos de Ridley Scott "Gladiador" e "Reino dos Céus", um exemplo tão interessante de esplendor estético, onde toda a panóplia de efeitos visuais surge em função da narrativa e com preocupações artísticas claras. Face à enorme evolução tecnológica do cinema contemporâneo, com espectaculares ferramentas digitais à disposição dos criadores, torna-se difícil gerir o protagonismo que os mestres dos efeitos computorizados alcançaram. Mais uma vez o realizador indiano Shekhar Kapur recorre, na tradição do cinema do seu país, à simbologia da côr patenteada nas magníficas indumentárias que realçam a intensidade dramática dos momentos-chave do filme (veja-se o impactante vestido vermelho de Samantha Morton no momento da decapitação da raínha Mary). Noutra imagem belíssima, Elizabeth avança para um penhasco onde, ao fundo, vemos a Armada Invencível decaíndo por entre chamas. Todavia, se certas opções de câmara são excepcionais (os magníficos e ambiciosos planos picados que reforçam a temática do isolamento de Elizabeth), existem também outras duvidosas que infelizmente recordam o passado deste realizador no mundo dos videoclips (a profusão de travellings em redor de Cate Blanchett torna-se excessiva no último terço do filme).
Kapur opera claramente uma recuperação da panache dos clássicos do cinema da era dourada de Hollywood, que aqui vai mais além dos cenários e guarda-roupa, arriscando a incursão no movediço terreno da psicologia de uma enorme monarca, no seu gáudio público e nas suas frustrações privadas. Elizabeth está em luta contra o mundo católico, contra os inúmeros traidores internos mas também numa constante refrega contra a sua condição de raínha que a isola do mundo, daqueles que ela ama e que a colocam no interior de uma inacessível torre de marfim. Essa solidão representa a angústia maior desta mulher fascinante, num equilíbrio precário entre os seus prazeres pessoais e os seus deveres régios. É enternecedora a sequência em que Elizabeth pede a Sir Walter Raleigh um beijo em segredo, procurando memórias perdidas de um prazer agora inatingível. São estes momentos que colocam "Elizabeth - A Idade de Ouro" acima da grande maioria do cinema que povoa anualmente as nossas salas, obras das quais nenhum momento sequer perdura no pensamento.
Num olhar final, pode-se afirmar que este é um filme de beleza cativante cujas falhas o impedem de superar a intensidade psicológica do seu antecessor. Uma situação inevitável face à alteração do centro de gravidade da obra, onde se procurou ir mais além das intrigas bizantinas da corte inglesa e abrir as portas para uma narrativa espacialmente mais vasta (sequências na corte espanhola e batalhas navais) e psicologicamente mais restrita (Cate Blanchett e a sua Elizabeth são o fulcro do drama). Face ao insucesso comercial do filme até ao momento nas bilheteiras mundiais e se em 2008 a Academia não decidir presenteá-lo com uma mão cheia de nomeações para os Óscares, dificilmente teremos uma continuação para completar a prometida trilogia.


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Relembrando John Frankenheimer

A história do cinema nem sempre é justa com alguns dos seus protagonistas mais relevantes. A enorme mediatização imposta sobre a vida e obra de alguns realizadores, em conjunto com a crescente relevância que os críticos cinematográficos alcançaram nas últimas décadas, conduzem cada vez mais a fenómenos atípicos em que personalidades medíocres são aplaudidas e premiadas, enquanto que artistas maiores e influentes são conscientemente ignorados.
Um bom exemplo deste último caso será certamente o norte-americano John Frankenheimer. Sem entrar em grandes considerações biográficas - no cinema o percurso desenhado pela obra de um artista far-lhe-à certamente mais justiça que as vicissitudes da sua vida pessoal - destaquemos então os filmes-chave da sua carreira longa e prolífera. Formado no mundo da televisão, Frankenheimer iria fixar-se permanentemente no grande ecrã desde 1961 com a sua segunda longa-metragem "The Young Savages", reflexão sobre a delinquência juvenil de onde se destaca a primeira colaboração com Burt Lancaster, um dos seus actores fetiche. Logo em 1962 surgiria a sua primeira obra de relevância "Birdman of Alcatraz", inspirado pela história real de Robert Stroud, um condenado a prisão perpétua que cura uma ave ferida na sua cela e acaba por se tornar num ornitologista de fama mundial. O já referido Lancaster e Telly Savalas conseguem duas magnificas interpretações, servidas pela direcção sólida de Frankenheimer que iniciaria aqui uma sequência excepcional de filmes que se estenderia por toda a década de 60.
Ainda no mesmo ano surgiria "The Manchurian Candidate" ("O enviado da Manchúria" na tradução portuguesa), filme seminal da sua obra e da história do cinema, um thriller político intenso sobre um grupo de soldados americanos que é raptado durante a Guerra da Coreia. Levados para a Manchúria (província chinesa) são alvo de um complexo processo de lavagem ao cérebro envolvendo hipnose profunda, com o intuito de criar o assassino infiltrado perfeito e manipular a política interna dos Estados Unidos. Frank Sinatra tem um dos grandes papéis da sua carreira como o confuso Major Bennett Marco, um solitário cujos pesadelos recorrentes o levam a investigar os acontecimentos que rodearam o desaparecimento do seu grupo na Coreia. John Frankenheimer revela aqui a sua enorme inteligência enquanto realizador, recorrendo a uma estética noir claustrófóbica que combina o humor negro com enquadramentos e ângulos de câmara pouco convencionais, gerando uma atmosfera irrespirável e plena de tensão. A estranha presciência do filme (a morte do presidente John F. Kennedy no ano seguinte seria apenas a primeira entre uma mão cheia de assassinatos políticos ocorridos nos EUA durante os anos 60) levou a que permanecesse quase desconhecido do grande público durante anos após o seu lançamento, até Frank Sinatra levar ao seu ressurgimento nos cinemas em 1988. A influência de "The Manchurian Candidate" iria estender-se não só pela restante filmografia de Frankenheimer, mas também na obra de um conjunto de jovens realizadores (Francis Ford Coppola, Alan J. Pakula e Brian De Palma, entre outros) que na década de 70 viriam a revitalizar o thriller originando um sub-género conhecido como paranoid thriller, filho da desilusão sócio-política gerada pelos assassínios de figuras centrais como os irmãos Kennedy e Martin Luther King e também pela longa guerra no Vietname.
Em 1964 seria lançado "Seven Days in May", reflexão intensa sobre as relações entre os poderes político e militar, revolvendo sobre um grupo de generais que planeia um golpe de estado após o anúncio de um acordo pacífico entre os EUA e a URSS para a desactivação total do arsenal nuclear de ambas as nações. Burt Lancaster desempenha o papel de um carismático general que mostra total desconfiança na boa fé dos até então inimigos do bloco comunista, desenhando o plano para a tomada do poder. Do outro lado da barricada encontra Kirk Douglas, um colaborador próximo que prefere desiludir o mentor que trair a sua pátria. Mais uma vez John Frankenheimer mostra a sua habilidade inata para criar tensão no ecrã preferindo, tal como na sua obra anterior, o uso da fotografia a preto e branco para realçar visualmente as dicotomias intrinsecas a cada personagem.
Mantendo-se nos "carris" do thriller seguir-se-ia "The Train" ("O Comboio", 1965) onde o omnipresente Burt Lancaster toma de novo o protagonismo como um corajoso resistente francês que, durante a II Guerra Mundial, tenta impedir os soldados nazis de levar um combóio carregado de peças de arte roubadas para a Alemanha. Frankenheimer dirige aqui não só um dos melhores filmes de guerra como também um dos grandes épicos de acção da história do cinema, conjugando sabiamente o suspense com personagens profundas e interessantes, com particular destaque para a de Lancaster, plena de dúvidas sobre a real necessidade dos seus actos. Também relevante será "Seconds" (1966), contundente fábula paranóica sobre um homem que decide abandonar a sua vida desinteressante para mudar de identidade com a ajuda de uma sombria organização. Depois de um conjunto de operações plásticas é-lhe dada uma nova opotunidade para começar a sua vida, desta vez como um pintor residente numa hedonística comunidade de Malibu, na Califórnia. Depressa se sente acossado na sua nova vida, mas a saída para o "velho mundo" não é uma porta que se abra com facilidade.
Durante os anos seguintes Frankenheimer iria seguir um caminho inconstante, com muitos altos e baixos, pelo que se poderão destacar algumas obras que sobressaem como "The Fixer" (1968), "The Iceman Cometh" ("O Homem de Gelo", 1973) e "The French Connection II" ("Os Incorruptíveis Contra a Droga II" de 1975, uma sequela excelente e psicologicamente mais profunda que o original, mas tambem injustamente esquecida). A década de 80 seria marcada por insucessos consecutivos que acabariam por conduzi-lo de volta ao trabalho para televisão. Tal facto não foi de forma alguma negativo, já que o realizador voltaria a recolher algum reconhecimento e sucesso, parecendo encontrar no pequeno ecrã a liberdade que havia perdido nas grandes produções de Hollywood. De monta são os seus trabalhos "The Burning Season" (1994), "Andersonville" (1995) e "Path to War" ("Caminho para a Guerra", 2002). Em 2002, após complicações surgidas durante uma operação à coluna, Frankenheimer viria a falecer aos 72 anos. Não poderia contudo terminar sem a obrigatória referência a "Ronin", filme produzido em 1998 e que representou certamente a sua última grande realização cinematográfica. Trabalhando sobre um argumento de David Mamet (creditado como Richard Weisz por divergências com a produtora), este filme transporta-nos para o mundo do pós-Guerra Fria onde os letais (e leais) agentes secretos de ontem são mercenários a soldo de quem pagar mais (daí a analogia com os Ronin japoneses, samurais sem mestre). Robert De Niro e Jean Réno formam uma dupla cativante de guerreiros sem rumo, incorporados numa equipa de elite formada para recuperar uma mala cujo conteúdo é desconhecido. A partir daqui decorre todo um agitado conjunto de eventos entre a amizade e a traição, tornados inesquecíveis pelas já famosas sequências de perseguição através de apertadas ruelas em várias cidades francesas e onde se faz sentir a mão experiente do realizador. Uma jóia a preservar, especialmente numa era em que os thrillers de acção estão reduzidos a meras montras de efeitos digitais, pelo que é anacronicamente refrescante voltar à autenticidade da acção filmada como há três décadas atrás (basta ver o já citado "The Train" do mesmo realizador para perceber este conceito de realismo).
Talvez seja por isso que grandes realizadores como John Frankenheimer acabam esquecidos, porque a passagem do tempo mudou a sua visão do mundo, mas não a sua forma idiossincrática de o filmar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Ainda Blade Runner


Em complemento ao post publicado anteriormente deixo aqui mais alguma informação sobre a edição definitiva de "Blade Runner". Estará disponível em três edições distintas, uma com dois discos, outra de quatro discos e a mais completa com cinco discos, todas disponíveis em formato DVD, mas também em HD-DVD e Blu-Ray. A data de lançamento prevista no Reino Unido é 3 de Dezembro, pelo que os mais impacientes poderão já fazer a sua pré-reserva em sites como a Amazon britânica. Para já não existe uma data prevista para o lançamento em Portugal.
Como se pode verificar na imagem acima apresentada, para além dos cinco discos, a edição europeia irá conter também um conjunto de oito fotografias de coleccionador, um fotograma do filme em película e uma carta pessoal assinada pelo realizador Ridley Scott.



Trailer do Final Cut de "Blade Runner", montagem final de Ridley Scott
que está a ter apresentações limitadas em cinemas dos EUA e em alguns
festivais europeus e que será lançada em DVD no final de 2007.


Mais uma vez os fãs europeus ficam a perder em relação aos norte-americanos já que naquele mercado será disponibilizada, a partir de 18 de Dezembro, uma edição ainda mais completa que inclui também um unicórnio em origami (réplica daquele que Deckard encontra no final do filme) e um spinner (veículo voador da polícia) em miniatura. Tudo isto embalado numa mala metálica exclusiva, em edição limitada e numerada, que está também disponível para pré-reserva em lojas como a Amazon dos Estados Unidos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Blade Runner - 25 anos depois

Depois de décadas de versões diversas em VHS, Laserdisc e DVD de "Blade Runner", chega finalmente a edição definitiva deste clássico da ficção-científica. Foi um difícil percurso com um quarto de século que culmina agora numa gloriosa celebração para uma obra-prima nem sempre consensual, mas cuja influência artística e social não pode ser negada.
Fruto de um processo de produção tortuoso, marcado por conflitos entre o realizador Ridley Scott e os financiadores, mas também por atritos com os próprios actores e equipa técnica (ficaram famosas as discussões com o protagonista Harrison Ford), "Blade Runner" acabou por ser lançado nos cinemas numa versão profundamente alterada em relação às pretensões dos seus criadores. Depois de um test screening onde os espectadores pareceram ficar confusos com o que viram os produtores, numa tentativa de clarificar a narrativa, ordenaram a inclusão de segmentos de voice over exageradamente explicativos, para além de um final feliz forçado. Lançado nos cinemas norte-americanos no Verão de 1982, o filme foi esmagado pela crítica e o público, ainda imbuído no espírito caloroso e familiar do recém-lançado "E.T. O Extraterrestre", acabou por ignorá-lo.
Nos anos que se seguiram o florescente mercado de VHS viria a ressuscitar "Blade Runner", convertendo-o naquele que será, muito provalvelmente, o primeiro filme de culto. Entre fanzines criados por apaixonados seguidores e as extensas discussões que se seguiriam na ainda jovem internet, nascia um fenómeno à escala mundial onde todos tinham interpretações diversas para os inúmeros elementos narrativos e estéticos da obra. Tudo culminaria, numa primeira fase, no relançamento do filme numa versão Director's Cut - esta denominação é um pouco abusiva já que Ridley Scott apenas permitiu que o filme fosse remontado segundo as suas instruções, sem contar contudo com o seu empenho directo e pessoal - onde para além da remoção da já referida voice over e do inane happy ending, foi acrescentada a já mítica visão de um unicórnio por parte da personagem central Rick Deckard, que reabriu a discussão sobre se ele seria um humano ou um replicant.
Volvidos então 25 anos, após longas negociações para que a Warner Home Video pudesse voltar a deter os direitos de comercialização do filme, surge agora a versão final assinada pelo realizador britânico (denominada Final Cut), onde revertem todos os elementos cuja inclusão estava inicialmente prevista. Para englobar este momento único para todos os fãs (onde orgulhosalmente me incluo) foram criadas nada menos que três edições distintas, que vão da mais simples com 2 DVD, passando por uma intermédia com 4 discos e a mais desejada com 5 DVD, que inclui por seu turno cinco versões do filme.




Trailer do extenso documentário "Dangerous Days" que reflecte
sobre todo o processo de produção do filme e que marcará presença
nesta nova edição, ocupando todo o segundo DVD.

Sem entrar em demasiados pormenores sobre cada uma das edições fixemo-nos apenas na mais completa. No primeiro DVD teremos o Final Cut do filme, acompanhado de diversos comentários áudio gravados por Ridley Scott, Hampton Fancher e David Peoples (argumentistas), Syd Mead (responsável de forma fulcral por todo o design visual) e Douglas Trumbull (genial técnico dos efeitos visuais) entre outros. No segundo disco teremos um documentário de 3 horas e meia, intitulado "Dangerous Days" (ver trailer acima), com a participação de mais de 80 intervenientes directos e indirectos na produção de "Blade Runner" e na interpretação de todo o fenómeno cultural que o sucedeu. O terceiro DVD contém três versões distintas do filme, a montagem original norte-americana (1982), a versão internacional (1982) que inclui algumas breves sequências de acção e violência não mostradas nos cinemas dos EUA e ainda o já famoso Director's Cut (1992), que lança a controvérsia sobre a real natureza de Rick Deckard. Para o quarto DVD a Warner Home Video seleccionou um conjunto de pequenas featurettes da época com entrevistas e sequências cortadas nunca antes vistas, destacando-se uma série de conversas com Philip K. Dick (autor do romance "Do Androids Dream of Electric Sheep" que esteve na origem do filme) e as galerias com esboços usados na concepção cénica. O quinto e último disco, um bónus apenas para aqueles que adquirirem a edição mais completa, traz-nos a Workprint de "Blade Runner" (numa tradução literal será a "versão de trabalho" utilizada geralmente para as primeiras sessões públicas ou test screenings dos filmes) que se apresenta como a mais radicalmente diferente jamais vista, incluindo uma nova sequência de abertura, uma banda sonora alternativa e diálogos não utilizados nas montagens posteriores. Certamente uma relíquia a ver e preservar por todos os seguidores do filme, mas também uma excepcional oportunidade para revelar este momento magistral de cinema a toda uma geração que só lhe terá conhecido os "herdeiros", toda uma panóplia de obras que beberam inspiração neste monumento criativo.