quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Facepoop

Confesso que, quando surgiram as primeiras notícias indicando que David Fincher ia realizar um filme sobre a criação do Facebook, fui acometido por uma sensação de receio. Depois do inconsequente "The Curious Case of Benjamin Button", balofo show-off de efeitos digitais, Fincher necessitava de redimir-se, de regressar à atmosfera obsessiva e oprimente que marcou os melhores momentos da sua obra. O ecos vindos da crítica norte-americana, quase unanimemente maravilhada com "The Social Network", e o arraial de nomeações e prémios acumulados até ao momento foram aligeirando o temor. Vãs esperanças...
Mark Zuckerberg é-nos apresentado como um jovem estudante de Harvard que, durante uma birra pueril após ter levado uma tampa duma potencial namorada (mais tarde percebemos que esta mulher será o fulcro da sua obsessão, a primeira verdadeira paixão da sua vida) decide vingar-se e cria uma rede social para a comunidade universitária (inicialmente um esforço jocoso que, eventualmente, será alargado para o público em geral gerando o incontornável Facebook). Fincher tenta filmar esta história como se de uma picaresca epopeia moderna se tratasse, um putativo Don Quijote do século XXI que luta contra os moínhos de vento da inveja e da solidão da sociedade moderna. Ou talvez não.
Aaron Sorkin, argumentista do filme, parece não saber como extrair interesse de uma sequência de eventos desprovidos de qualquer fundo dramático. Gosta claramente de brincar com as palavras e estas são debitadas a um ritmo alucinante pelas personagens. Contudo, a fronteira entre o diálogo perspicaz e a verborreia oca é frequentemente transposta (nem todos podem ser David Mamet). Oscilando entre o slice of life do mundo universitário e o thiller judicial, feito de acareações entre personagens cujas relações foram corroidas pelo sucesso estrondoso e meteórico do Facebook, "The Social Network" apresenta-se como um exercício árido sobre a sociedade contemporânea que, em algum momento, consegue retratar com eficácia a complexidade psicológica dos intervenientes ou o real impacto das consequências das suas acções. Como documento de uma era e de uma revolução social o filme falha rotundamente pela sua frieza e distanciamento em relação às personagens. Como potencial caricatura de uma juventude alienada e cada vez mais solitária (como Zuckerberg) falha ainda mais (é difícil esboçar um sorriso, mesmo que cínico). Por momentos parece que "The Social Network" vai enveredar por uma narrativa à lá "Rashomon", feita de múltiplas verdades ou versões da verdade sobre quem é o real autor do conceito do Facebook. Rapidamente tal ilusão se esvai. Até no capítulo da mise en scéne, em que Fincher não raro foi capaz de surpreender e até inovar, este filme salda-se num profundo fracasso.

Em que ficamos então? Efabulação sobre uma solidão cibernética? Conto moral sobre como o sucesso financeiro pode destruir a nossa dimensão pessoal e emocional? Sinfonia patética sobre um amor não correspondido? Nada disso. O mais triste é perceber que por detrás da história de Mark Zuckerberg existia um substrato, mesmo que magro, sobre o qual os cineastas poderiam ter construído uma narrativa sólida, feita de personagens com dilemas reais e algum relevo na caracterização emocional. Ficamos com uma mão cheia de nada. O receio que confessei nas primeiras linhas deste texto sai confirmado e ampliado.
Para onde caminha David Fincher como realizador? Neste momento trabalha num remake, aparentemente desnecessário, do sucesso cinematográfico sueco "The Girl with the Dragon Tattoo". O thriller é certamente um território mais familiar, mas será possível superar o factor precocidade na decisão de refilmar uma obra tão recentemente adaptada ao cinema? E que dizer do súbito delírio da crítica com um filme que é tão pouco representativo das qualidades do seu realizador? Fincher pode até ganhar, pela primeira vez, um Óscar por este seu esforço. Não seria a primeira vez que Hollywood premiaria um antigo pária por uma aproximação à banalidade das formas e conteúdos “aprovados” pelo establishment cinematográfico (o exemplo de Martin Scorsese e do seu "The Departed" vem imediatamente à ideia).

8 comentários:

luminary disse...

Não concordo com praticamente nada que dizes, o que não quer dizer que queira bater em alguém :) Acho que já lera as mesmas críticas feitas pelo teu irmão, o que aligeira. A minha review no filme está nos antípodas da tua e prova como diferente sensibilidades e diferentes gostos encaram as mesmas coisas de um ponto de vista diferente (BTW, não concordamos também com a análise de "The curious case of Benjamin Button, por isso, é mesmo questão de sensibilidade).
Deixo aqui a minha review de "The social network", para o caso de te quereres rir nas horas livres ;)

Bons filmes e aquelas paneleirices entre cinéfilos!

luminary disse...

http://lostintheisland.blogspot.com/2010/11/social-network.html

Esqueci-me do link!

Carlos L. Figueiredo disse...

Obrigado pelo comentário. Li a tua crítica e, não concordando com ela na generalidade, compreendo a validade dos argumentos que a sustentam. A minha visão do "The Social Network" revela alguma da desilusão com que tenho encarado os últimos esforços da carreira do David Fincher. "Zodiac" foi um dos filmes-charneira desta década e, desde aí, sinto-me sinceramente desapontado (o mesmo acontece com outros realizadores e, talvez, com o cinema em geral). Vamos ver o que sai agora com o próximo filme. Estou a fazer figas porque, afinal, Fincher é um grande realizador e quero vê-lo em topo de forma):)

luminary disse...

Eu considero "Zodiac" um dos grandes filmes da década também. Acho, aliás, que se tivesse um argumento um pouco melhor organizado, podia ser bem não só o melhor filme da carreira de David Fincher, mas porventura o filme da década. É, basicamente, a "cara" do realizador, por assim dizer: minucioso, narrativamente fasciante e um poretanto de estilo. Ainda que, para mim, o seu melhor filme contniue a ser "Fight club", por muitos motivos que até extravasam a sua condição de filme (e sío nessa, já é um estouro).

Carlos L. Figueiredo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos L. Figueiredo disse...

"Fight Club" ultrapassou claramente a sua dimensão fílmica e assumiu-se como um fenómeno sociológico. Expressa o sentimento de uma geração e, simultaneamente, transformou-se num marco da cultura contemporânea ("The Social Network" podia prestar-se a esse papel nesta nova década mas, quanto a mim, falta-lhe a rebeldia e, mais relevante ainda, a alma). Quando se fala de Fincher gosto sempre de recordar "The Game" que, sendo o seu filme menos propalado e talvez mais mal amado, é uma obra que plasma maravilhosamente a estética e a abordagem psicológica desafiante que o definiu como cineasta durante os anos 90 (a temática da manipulação, os jogos de realidade vs ficção, a escuridão profunda do quotidiano plasmada no cuidado tido na direcção de fotografia, etc). Talvez por isso eu inclua "Zodiac" entre os grandes filmes Fincherianos, porque apesar de enveredar por uma nova rota narrativa (maior realismo no estilo police procedural), preserva aquela estética idiossincrática intacta.

luminary disse...

"The game" foi, durante muito tempo, um objecto de devoção pessoal, ponto. Recuso-me a tecer comentários acerca desse filme sob pena de me doer fisicamente ficar aquém do seu poder através das minhas palavras. :)

Carlos L. Figueiredo disse...

Esse é sempre o dilema de quem tenta escrever algumas palavras sobre um filme que tanto se aprecia. Falta sempre algo, mas isso ocorre com qualquer esforço que se faça para transpor a magia da arte para o papel - há coisas que são simplesmente indescritíveis e que só podem ser vividas, experimentadas. Para mim, "The Game" é bem sintetizado por aquele frame enigmático, misto de memória e registo em celulóide, que mosta o vulto do pai do Nicholas Van Orton no topo da mansão, momentos antes de se lançar para a sua morte. É belo e aterrorizador, acompanhando toda a odisseia do protagonista ao longo do filme. É o fantasma eternamente presente do dilema do homem que atingiu o cume da riqueza material, mas sente-se desesperado e vazio por dentro. Aquele algo (que é muito) que lhe falta e que o empurrou para sua morte, explode no final do filme quando Van Orton se lança do arranha-céus. Morte como forma de purificação e redenção? O eterno salto no vazio. Grande filme esse... Sends shivers down my spine just thinking abour it!