domingo, 11 de novembro de 2007

A idade dourada do cinema

Este "Elizabeth - A Idade do Ouro" surgiu referido na lista de filmes mais aguardados para este ano que publiquei em Setembro passado e a antecipação era grande já que depois da excepcional primeira parte, estreada em 1998, ficou a sensação de que era necessária uma sequela para retomar a exploração sobre o reinado da monarca britânica. A história agitada do primeiro capítulo enconta aqui um digno sucessor, não sem falhas graves que o tornam numa obra imperfeita, mas fascinante.
Se em "Elizabeth" tinhamos uma luta essencialmente intersticial pela posse do trono, esta segunda parte expande-se para um âmbito mais vasto: a batalha pela sobrevivência de uma nação. Talvez por isso, o efeito de exaltação patriótica é aqui mais evidente, factor que acaba por ser fatal para as ambições dos criadores do filme que optaram por uma abordagem maníqueista do conflito entre a Espanha católica e a Inglaterra protestante. Sofre com isso a caracterização do principal antagonista do filme, o Rei Filipe II (Jordi Mollá faz o que pode com os diálogos que lhe foram atribuidos) e a própria Cate Blanchett denota, a espaços, dificuldades em lidar com a inconsistência da sua personagem. Momentos como o apelo de Elizabeth às suas tropas - entre o impacto visual de uma Joana D'Arc e o discurso Shakespeariano de Henrique V em Agincourt - revelam a fragilidade do argumento escrito por William Nicholson e Michael Hirst.
Este filme reacende ainda a eterna discussão existente entre a primazia da liberdade artística e as exigências de autenticidade histórica no cinema. Apesar de assentar em factos reais, "Elizabeth - A Idade de Ouro" é uma obra de ficção onde, por natureza, o rigor é variável consoante as necessidades dramatúrgicas. Espera-se, pelo menos, que as opções de desvio em relação aos factos sejam benéficas para o filme, o que aqui nem sempre se verifica. Personalidades fascinantes da época como Sir Francis Drake surgem fugazmente, enquanto que Sir Walter Raleigh (uma figura interessante mas de certa forma lateral) tem grande protagonismo, fruto notório da intenção de criar um triângulo amoroso entre ele, a raínha e a sua camareira. Clive Owen parece tentar recuperar o magnetismo de mestres do swashbuckler como Errol Flynn para dar vida ao pícaro Raleigh, mas é claramente incapaz de conciliar o fascínio primário da sua personagem aventureira com as exigências dramáticas de algumas sequências. Refira-se que com actores como Cate Blanchett e Geoffrey Rush (merecia mais tempo em ecrã com o seu genial Francis Walsingham) por perto torna-se difícil brilhar por mérito próprio, tal é o rigor que conferem à composição dos seus papéis.
Deixando de parte os principais defeitos, é obrigatório frisar os pontos fortes daquele que, apesar de tudo acima referido, é um excepcional filme de época. É raro encontrar no cinema histórico dos últimos anos, à excepção dos épicos de Ridley Scott "Gladiador" e "Reino dos Céus", um exemplo tão interessante de esplendor estético, onde toda a panóplia de efeitos visuais surge em função da narrativa e com preocupações artísticas claras. Face à enorme evolução tecnológica do cinema contemporâneo, com espectaculares ferramentas digitais à disposição dos criadores, torna-se difícil gerir o protagonismo que os mestres dos efeitos computorizados alcançaram. Mais uma vez o realizador indiano Shekhar Kapur recorre, na tradição do cinema do seu país, à simbologia da côr patenteada nas magníficas indumentárias que realçam a intensidade dramática dos momentos-chave do filme (veja-se o impactante vestido vermelho de Samantha Morton no momento da decapitação da raínha Mary). Noutra imagem belíssima, Elizabeth avança para um penhasco onde, ao fundo, vemos a Armada Invencível decaíndo por entre chamas. Todavia, se certas opções de câmara são excepcionais (os magníficos e ambiciosos planos picados que reforçam a temática do isolamento de Elizabeth), existem também outras duvidosas que infelizmente recordam o passado deste realizador no mundo dos videoclips (a profusão de travellings em redor de Cate Blanchett torna-se excessiva no último terço do filme).
Kapur opera claramente uma recuperação da panache dos clássicos do cinema da era dourada de Hollywood, que aqui vai mais além dos cenários e guarda-roupa, arriscando a incursão no movediço terreno da psicologia de uma enorme monarca, no seu gáudio público e nas suas frustrações privadas. Elizabeth está em luta contra o mundo católico, contra os inúmeros traidores internos mas também numa constante refrega contra a sua condição de raínha que a isola do mundo, daqueles que ela ama e que a colocam no interior de uma inacessível torre de marfim. Essa solidão representa a angústia maior desta mulher fascinante, num equilíbrio precário entre os seus prazeres pessoais e os seus deveres régios. É enternecedora a sequência em que Elizabeth pede a Sir Walter Raleigh um beijo em segredo, procurando memórias perdidas de um prazer agora inatingível. São estes momentos que colocam "Elizabeth - A Idade de Ouro" acima da grande maioria do cinema que povoa anualmente as nossas salas, obras das quais nenhum momento sequer perdura no pensamento.
Num olhar final, pode-se afirmar que este é um filme de beleza cativante cujas falhas o impedem de superar a intensidade psicológica do seu antecessor. Uma situação inevitável face à alteração do centro de gravidade da obra, onde se procurou ir mais além das intrigas bizantinas da corte inglesa e abrir as portas para uma narrativa espacialmente mais vasta (sequências na corte espanhola e batalhas navais) e psicologicamente mais restrita (Cate Blanchett e a sua Elizabeth são o fulcro do drama). Face ao insucesso comercial do filme até ao momento nas bilheteiras mundiais e se em 2008 a Academia não decidir presenteá-lo com uma mão cheia de nomeações para os Óscares, dificilmente teremos uma continuação para completar a prometida trilogia.


2 comentários:

Artur disse...

É verdade, o filme vale pelo guarda-roupa, por Cate Blanchet e por alguns tableaux bem conseguidos. Mas a pobreza do argumento fez-me lamentar as minhas elevadas expectativas após o primeiro Elizabeth. Se tivéssemos a Cate a monologar sobre a vida amorosa das aias, enquanto veste e despe vestidos magníficos durante 3 horas, no palácio ou numa falésia tormentosa, com movimentos de câmara falaciosos e contra-picados à la Riefenstahl, não se perdia muito.

Carlos L. Figueiredo disse...

Obrigado pelo comentário Artur (ainda és dos poucos que visita este blog :)!
Concordo que fica uma forte sensação de desilusão depois de ver este filme, pricipalmente para quem gostou do seu antecessor. Apesar de tudo tentei realçar alguns dos aspectos positivos aos quais deve ser feita justa menção (momentos específicos de especial beleza e impacto).
Hoje em dia é tão raro surgirem filmes que nos façam ir às salas de cinema que este, quanto mais não seja pela curiosidade que despertou, merece algum destaque. Mesmo assim não perdoo o facto de Sir Francis Drake não ter tido maior protagonismo.